terça-feira, 9 de abril de 2019

Tormento

Eu vi a fúria serena em seus olhos,
no momento em que seu peito ardia
como se estilhaços de vidro estivessem cravados um por um.
Minha tormenta foi não saber como seguir de modo que pudéssemos sair ilesos,
se é que possamos...
No egoísmo, eu perdi e me vi perdido
pelo desejo de ter tua liberdade
que me escapava pelas mãos.
Eu te quis como um desesperado
e medonho foi o medo de não possuir.
Agora é trágico o fim que tecemos sobre palavras difíceis, agressivas e fúteis. 
Só saiba que por nada além de nós dois,
meu caminho de volta pra casa é uma coleção de tuas fotografias.
E em minha mente, o som da tua risada parece ecoar cada espaço em que estou,
assusta a tua ausência ser meu presente.
E agora, eu busco refúgio em tudo isso,
até que eu saiba seguir sem que tenha algo teu em minha atmosfera,
um dia após o outro para aceitar os meus enganos,
julgando todas as noites que os sonhos não chegam,
agoniado por não trazerem teu corpo, tudo que há em você, tua paz, tua ira, teu amor.

Amei tardio, flor. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Continuum

Enquanto a maré avançava, os copos estavam cheios de cerveja outra vez, o barulho dos outros jovens jogando sinuca se perdia ao som da brisa do mar, a mesa para dois, as vestes inapropriadas para um barzinho na praia, o ignorar de possíveis comentários, o conforto de estar um ao lado do outro bastava. Entre a troca de olhares e a conversa calorosa, a TV de plasma mostrava um time a perder o jogo aos quarenta e cinco do segundo tempo. Naquela noite, o segundo encontro adiado e mais esperado, falávamos sobre Bauman e as reflexões que tínhamos sobre alguns livros do mesmo autor. Foi exatamente neste dia que percebemos o quanto fomos tardios. Beijávamos-nos com entrega jamais vista, como quem tivesse o último dia de vida, a ação que faríamos se exatamente fosse.

Vambora

A canção que tocava enquanto entrávamos ludibriados nos quartos, sempre no início dos encontros já agora sagrados, nunca destoava os sons de nossas risadas que nos fazia recordar também momentos fragmentados, despertando o nosso lado humorístico presente nos intervalos das extensas entregas febris. E nós,  sem intenções de criar um mundo único, personagens fantásticos, situações que intensificam o encanto, ações que conduzem as paixões, não nos envolviam ao modo convencional. E como o vento sopra, fluíamos. A leveza no peito, as respostas imediatadas ao toque, a inquietação ainda não surgida, tudo permanecia ávido.

A Urgência de nunca ter dito mas sentido em todos os encontros, talvez tenha sido a maior prova de que não é necessário ser tudo declarado. E diante da pouca luz, dos corpos contraídos e já somados as respirações ofegantes, surgiam sorrisos e olhares afetuosos. Elogios simultâneos, a modéstia e a contemplação do que éramos em satisfação.

E num descuido de verão,  às seis da tarde, as avenidas tomadas de carros, sons se confundiam outra vez através da janela do meu quarto. A leitura de um livro foi interrompida naquele momento, entre o silêncio do ambiente e o barulho lá fora, nenhuma dúvida. O amor chegou. O distrair nos momentos de imenso foco, o aceitar de que não era apenas a emoção ali a falar ao ouvido. A sensação de que as comportas de uma usina  não iriam conter a imensidão das águas, foi a mesma sensação ao vê-lo pela décima nona vez. Quando ele parou em frente a minha casa, observando o meu aproximar em um macacão jeans e uma blusa branca curta. Os seus braços a sinalizar a vontade de um abraço, a demora daquele momento denunciava o que eu ainda tentava insistentemente esconder, alguns elogios agora pareciam intimidar, o  coração disparando, a boca pronunciando uma frase que transfigurava um outro sentimento maior, bem equivalente.

Eu adoro você!

Ter e reconhecer. O medo que qualquer outro acometido pelo amor sente ao descobrir o que está ali, evidente. As incertezas que conosco carregamos, frutos de várias outras experiências próximas e nossas. O campo que nos leva ao eterno afeto de amar e odiar. E que a venda se coloca sem permissões, pois é dada a sentença que restringe as confissões dos defeitos alheios. Negamos e afirmamos o que nos convém, doar-se e doer-se.

No vigésimo encontro, no sétimo mês, do segundo ano. Declarados. Afundados. O "Eu Amo Você" traduzidos em duas línguas. O estacionar de poucos segundos, as interpretações sobre o que é o AMOR, a confusão equivalente à aflição que chega para dois. A compreensão que talvez não permanece em um.  E a soma de algumas madrugadas de insonia, um carro batido, um travesseiro encharcado de lágrimas, um porre medíocre, fotografias e vídeos  vistos e revistos, um ombro amigo, decisões incoerentes, o encarar dos fatos.  O amanhã desconhecido e incerto. A falta de nada para odiar. A ânsia de continuar amando.

O relógio anuncia a hora exata. Tudo acontece como num jogo de futebol, como numa partida de sinuca, como no avanço da maré, como no encher e no esvaziar dos copos de bebida, como nas músicas escolhidas e as gargalhadas em momentos ímpares, entre um intervalo das cores néon do semáforo, como a sensação de pertencer e não merecer. Como eu e você.

- Como eu amo você!
- Pra onde você vai? Você Volta? Eu amo você. Eu sentirei a sua falta!




quinta-feira, 15 de junho de 2017

Despedida

Sempre foi assim, acordava saudosista, diferente, feliz. Aquele sorriso emergia na face intempestivamente, veloz, teimava em ficar. Era bom, muito bom! Apalpava o abdômen flácido e acreditava que fora dos padrões estava. E em um certo dia,  diante do espelho, admirou-se com sua aparência franzina, refletiu sobre a necessidade urgente de estabelecer em seu cotidiano exercícios que melhorassem seu condicionamento físico. Uma inquietude que demorou nada mais que poucos minutos, eis que sua alma – naquele momento - era de um afortunado. 

Em seguida, quando chegou ao trabalho, cumprimentou o porteiro como de costume e apertou a envelhecida tecla do elevador da qual seu dedo era atraído como se fosse um imã, por tantas vezes prensado o botão de número 4. Ao abrir a porta, inspirou fundo para soltar vagarosamente o ar pelas narinas, ela estava ali, naquele corredor, nos braços de uma pessoa desconhecida – pelo menos para ele. E como aviso imediato, seu corpo estremeceu, pressupondo que seu coração estaria a bater descompassadamente, algo acontecia em seu interior, talvez seu corpo não obedecia os comandos dos quais o manteria calmo. 

Devaneado, lembrou-se do sorriso dela e dos dedos a se envolver entre os fios de cabelo enquanto o olhava fixamente nos olhos, com sua cabeça levemente inclinada para um dos lados durante as conversas. Flertes recheados de mel e condimentados com gosto de ternura. Recordou dos abraços furtivos, carinhosos quando se encontravam nos corredores,  e das mensagens repletas de afeição, quando por  descuido, deixavam seus corações falarem. 

Novamente, percebeu seu velho defeito em romantizar relacionamentos, resultando em ver coisas que não estavam ali e quiçá, nunca estiveram. Frutos de sua fantasia e expectativas que nunca se alinhavam com a realidade. Inconscientemente, ele havia condicionado sua felicidade a simples presença dela em sua vida, mesmo se tratando, até o momento, de mero cortejo. Angustiou-se percebendo que sentiria falta daquele  sorriso, daquele olhar, daquele jeito de falar e das risadas, mesmo que ela era o motivo de sentir-se tão eufórico, tão vivo.

E ao mesmo tempo que havia mergulhado em profundas memórias, a presença dele no recinto era por ela notada. Abraçada e com a cabeça apoiada no ombro do seu amante, desferindo um olhar que partira seu coração. Ele não estava preparado. Naquele momento, ele compreendeu que a saudade dói como faca cravada no peito e que paixões são como sopro, não duram, não possuem finais felizes.
.

Na quietude, quantas coisas são ditas sem se proferir sequer uma palavra? Então,  ele entendeu que ela nunca lhe pertenceu e que por mais difícil que fosse, precisava penosamente, deixar tal sentimento falecer.

Confidente Anônimo

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Sou dela

O perfume dela ficou na camisa branca
Que lembrança...

Lembrei da boca borrada
da cara amassada 
dos brincos perdidos
do atrito dos nossos corpos no colchão

Lembrei do rádio, tocando baixo  
enquanto o batom já retocado
anunciava uma despedida
confusa e indecisa no refrão daquela canção 

Lembrei daqueles longos cabelos, tão pretos
que me distraíam nos sinais vermelhos
assim como os olhos castanhos 
que brilhavam tanto quanto os faróis em minha direção

A mulher de gestos acalentadores
graça, cor, luz e sabores
que nem a mais santa e mais louca 
jamais me proporcionou tamanha emoção

A mulher que falava do amor assim como o fazia
tinha o dom e demonstrava com maestria
Não tinha tocado um corpo tão majestoso quanto o dela
Desconheço mulher mais intensa que aquela 

Eu tantas vezes rei e outras vezes escravo
Tanto reneguei como ainda encaro
Esse amor submisso, tão raro
Cheio de voltas que se afoga  em revolta 
e me afugenta agora dessa demora inquietuosa

Ela me assanha e ainda me ama
Eu não tenho controle sobre tudo o que me consome
Eu a quero de volta mas não revelo essa hora

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Retragos

Juro que meu coração se agitou de forma diferente das outras vezes. Sempre concordamos que quartos de motel eram enodados. Aquele hotelzinho sóbrio da Avenida 13 já significava muito para nós. Uma chuva de final de tarde tornava o ambiente mais mágico e encantador. O sol parecia envergonhado ao se esconder atrás das nuvens cinzas. O tom de preto e branco do céu fazia lembrar uma fotografia retratada meramente em luz e sombras. Pura poesia. Antes de adentrar ao quarto, imaginei quantos encontros furtivos já tivemos e quantas sensações antes nunca experimentadas tive. Medo e desejo se misturavam de tal forma que me arrepiava os braços. Apenas rodei a maçaneta e a porta se abriu. Eu estava ali e ela também, que de alguma forma me atraía e nada mais me importava a partir daquele momento.
 Não havia regras e as amarras se dissolviam como algodão doce na boca. O nosso momento era aquele e o depois não significa mais nada, eis a entrega voluptuosa de nossas vidas. Sinatra surgiu como um último retoque que faltava...All or Nothing at All...tudo ou nada! E sem falar nenhuma palavra, se entregou em meus braços. Ao som dos trompetes da música nos unimos. Futuros Amantes de Chico Buarque revirava minha cabeça...”o amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio”. Realmente fazemos acontecer! Despidos, roupas jogadas ao chão, beijos fogosos que refletiam o quanto queríamos nos possuir. Eu dentro dela, ela me envolvendo de corpo e alma. Não conseguia escutar mais canção alguma, apenas o som excitante da nossa respiração ofegante e num movimento cadencioso, chegamos ao orgasmo juntos. Últimos suspiros acompanhados de uma alegria indescritível. Que grande noite tivemos!

Confidente Anônimo. Texto em resposta ao Avenida 13.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Oculto

Ei, eu ainda te amo
E sabe, eu me sinto tão alheio, pequena. Embora as tuas lembranças constantemente adentram nesta casa, teu silêncio por muito pouco não me destruiu. Em uma poltrona velha, aqui estou a relembrar dos teus olhos tão profundos, do teu corpo que causa uma desordem descomunal, da tua voz que hora acalantava e que por vezes me aborrecia pelo tom rude. Não imaginava descrever algum dia este fim, por mais que tão distante me encontro de ti e a tua ausência seja aquilo que por descuido fui premiado, é do teu amor que anseio. Que falta sinto. E chove, meu amor. Eu sei o quanto a chuva te agrada, te faz "riscar" com a ponta do dedo indicador os vidros dos carros, lembrei daquela noite em que tu escreveste um trecho da nossa música enquanto falavas das coisas que já fizemos em dias frios. Uma mulher, uma menina, um ser mais além. E agora, eu me questiono como pude perder tudo isto, é... Eu me convenci de que perdi porque sei que alguém pode amar da forma como tu acreditas que alguém possa e deve amar alguém, transcendendo. 
Hoje, ao voltar do trabalho, encontrei alguns amigos, assuntos aleatórios, naquele momento eu me sentia muito distante, tu permanecias em minha mente, calado por vezes demonstrei o quanto de mim se perdeu depois de ter te perdido.Todos estavam cientes da nossa confusa história, a história da qual saímos sem um norte. Eles sabem da verdade, não da forma como tu querias e como os outros almejam saber. Mas, eu ainda te amo. E sei que é tão tarde quanto ao horário que está marcando. Alguém deve estar tão encantado quanto eu fui ao te conhecer, eu ainda não deixei de estar. Talvez esteja permitindo, já faz tanto tempo, não é? E deves, tu podes! Tolo fui eu. Mas, eu ainda te amo. Eu te amo porque dentre várias outras amantes, tu compreendeste meus defeitos absurdos e esperaste colher aquilo que eu jamais pensei que existisse de fértil em mim, tu despertaste o maior dos sentimentos e mais almejado. Agora eu compreendo, aquilo que eu mais temi e escondi diante de alguém, amor.

Eu te amo.

domingo, 12 de março de 2017

Avenida 13

 Grande noite teremos. Avenida 13. Final de tarde. Chove, estes últimos encontros tão mais frequentes nos empolgam, isso parece ser bom, é poético e sujo. Só vem. Não há nada tão excitante quanto ao que estamos vivendo. Eu te chamo, você vem. Você me chama,  eu vou.  Eu estou aqui e você também. É por isso que dá certo, não há outra coisa que nos prenda, não há ninguém que possa nos impor regras de como as relações podem ser, não nos importamos. Não nos cansamos. A gente vive o que tiver pra viver hoje, amanhã e depois, nunca pensar no depois. É aqui, agora, nós dois. Ninguém aqui esconde querer, é um prazer estar ao seu lado, ouvindo Frank Sinatra ou Buarque, perceber que dentro dos teus olhos, eu me sinto completamente despida, você não tem medo, eu não sinto nada tão grande quanto coragem. É por isso que dá certo. Você e eu fazemos acontecer. A roupa amassada, os lençóis jogados no chão, os beijos quentes. O teu nome chamando, meus olhos fixos aos seus, nossa respiração ofegante, elogios indecentes, últimos suspiros acompanhados de sorrisos. Íntimos da noite, vício. Que grande noite tivemos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Mar Revolto

E aos tolos confessei das vezes que te amei no escuro, nos meus silêncios disse aos sábios o quanto a chuva anunciava o meu desespero. Você é a tempestade, o caos mais assombroso que qualquer capitão teme enfrentar. Os ventos não me favorecem na calmaria, talvez nunca desejasse um mar sereno. E enquanto esta embarcação estiver sobre as águas, enquanto não encontrar terra firme, o teu desconhecido mar me fará suportar as agonias de um eterno e incansável marinheiro  a velejar. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ausência – Vinícius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

âma(r)go

Perdi o bom senso, o humor, o ardor
Mas zelei o orgulho e a razão,
esvaziei o poço da solidão
Guardei seu amor e de ti descansei
E a mim protegi do caos que é amar o teu ser

Eu sei
Acertei
Errei
Ganhei
Perdi


Não me reconheci
Por engano me redimi
Sem saber o porquê

Corri
Fugi
Voltei
Sumi


E eu estou aqui nessa neutra posição
Em vão nesta indecisão
Nesse tormento incansável
Agoniante interrogação

Em que momento eu me vi em teu icógnito coração?






sábado, 30 de janeiro de 2016

Bebendo tequila, despindo verdades.

Dez e quarenta da manhã, visualizei a última mensagem, fechei os olhos a me questionar: por que alguns shots de tequila fazem isso com a gente? Por que eu não desliguei esse maldito celular? Não posso me orgulhar e nem me envergonhar por ter dito aquilo tudo. Meus três melhores amigos poderiam me apedrejar e com total razão, eu estava a rir de mim mesma, da minha própria fraqueza. E com toda certeza, eles iriam rir  antes de fazerem algum bem a humanidade: manter-me em profundo silêncio outra vez, e pelo meu próprio bem, se é que isso iria resolver alguma coisa numa hora dessas. Um tanto comum, isso já tinha acontecido, outros conhecidos me contaram sobre seus excessos. Isso me alivia. Eu não era a única a ser julgada por tal delito, carregaria outros culpados comigo. Sozinha, eu não iria me agonizar, era uma certeza. Eu abri os olhos para rever as horas, onze e cinco. Eu estava ali, na minha cama a refletir sobre os meus atos insanos da matina. Eu lembro de tudo, e isso era o que eu não queria. Na verdade, não foi insano, não tanto o quanto eu queria que fosse. E foi a primeira vez que eu não cheguei a dizer tudo, forças maiores me impediram, eu não tenho dúvidas disso, nem reclamo. É uma contradição. Tequila não é coisa que se deve beber quando se tem um assunto mal resolvido. Tequila é feita pra liberdade, uma liberdade sem algemas amorosas, coisa que eu não soube interpretar. Eu queria liberdade, bebi tequila, não escondi verdades, desabafei memórias, desejos, vulgaridade. Se faltavam letras naquele texto, sobraram inúmeras palavras por culpa do meu ego.
Tropeçar é cômico, eu tropecei em mim mesma, tão desastrada. Naquela noite, um desastre previsível, você me segurou antes que eu pudesse cair, você tropeçou também mas sem ter bebido nem um gole de tequila. A minha loucura não seria pertinente se não tivesse alguém para provocá-la. E você era bom nisso, ainda é bom nisso. Estrategista e manipulador, uma ruína para mentes frágeis. Eu fiquei a refletir sobre isso. Será que eu estava sã de minhas faculdades mentais? Eu havia justificado a minha loucura anteriormente, o que de fato ela surge quando as coisas estão muito calmas. Mas era um bom motivo pra eu me sentir louca, eu não sou do tipo que faz jogo, eu sou silenciosa. E uma mente silenciosa em dados momentos é algo assustador. Ela grita. O silêncio gritou.
Não quis me condenar, eu queria liberdade e de alguma forma, eu a tinha agora. Ficar engasgada com palavras é bem pior do que estar engasgado por não mastigar direito. É uma morte lenta caso não tenha alguém pra te salvar no momento. Eu tenho consciência. Mas e o bom senso? Não sei, eu sou impulsiva, nada metódica. E é por isso que nas sextas à noite, eu nunca estou em casa. 
E se a coragem não tivesse invadido, a recíproca não seria verdadeira. Um pingo de coragem a mais, eu não sei em que lugar desta cidade, eu iria estar com você. Graças ao celular descarregado, nenhum pecado maior foi cometido ou foi ter sido deixado de cometer.
Aquela pergunta fica para a próxima vez quando os shots de tequila sejam em um número maior. E se os nossos tropeços estiverem em sincronia na madrugada, repetiremos com sorte a mesma dose, beberemos mais um gole de nós dois.

Fisgagem

Nas noites das terças ou das quintas era sorte ou azar. 
Nós dois. 
Três horas ou quatro,
por que iríamos contar? 
O relógio era o nosso pior inimigo na ida 
o melhor quando apontava o momento da vinda.

O mar, 
a calma,
o silêncio, 
os sorrisos,
as avenidas, 
os becos,
a chuva. 

Seu calor,
meu amor. 
Meu fogo,
seu sufoco

Nossas almas, 
entrelaçadas.
Os arfares,
os sussurros, 
os jeitos,
os nossos momentos.

Um infinito dentro de pouco espaço,
no carro, 
no banheiro,
na cama,
no chão. 
Um rádio ligado, 
os risos, 
os abraços.

Uma hora de birra,
outra hora de amor.
Madrugadas de insonia. 
Manhãs de torpor.
Tarde de ansiedade, 
Noite de insanidade. 
Você é odeon
Eu sou néon.

sábado, 26 de setembro de 2015

Últimas palavras sobre um Adeus


Por tão pouco não abri a porta e coloquei sua mala com todas as suas lembranças fora. Em profunda adoração por desculpas tão vazias, encontrei em suas explicações inúmeras mentiras. Levando-se em conta esse sentimentalismo emaranhado de porquês, logo eu que nunca deixei que algo pudesse sair fora do controle, percebi-me em um labirinto assombroso de indecisões e ilusões. E nos rabiscos destes desabafos tão supridos de agonia, eu não nos vejo como antes, também nunca foi tão claro perceber-me ao seu lado. Esse futuro tão incerto para quem antes depositava no presente tantas certezas, era belo não pensarmos no amanhã. A minha falta de sorte é saber que total zelo será como todos os outros finais que por nenhum mérito sejam desmerecidos. É louvável agora cantarmos um hino sobre nossas derrotas nessa incansável luta pelo amor. Nós saltamos para o abismo da ilusão, perdidos, suplicando salvação. Nossas mãos tão firmes parecem se deslizar em constantes vacilos, o que era tão insistente parece desafiador demais.
Suas inúmeras partidas indecisas me fizeram perceber que eu não soube ver 1/3 dos alertas que o destino deixou tão visível. 

Não somos mais os mesmos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma paixão, a mais poética de Alice

Era diferente. De repente senti uma súbita agonia que confortava todo o meu corpo envolta do edredom. Ao ler aquelas palavras, sentia-me como se tivesse escrito cada uma delas, como quando meses atrás estava perdida, sem saber o que fazer quando o que eu sentia parecia confuso e estranho, como se eu não soubesse ver um pouco de lucidez sobre os meus atos que arriscavam a minha integridade. Eu me vi cantando aquele mesmo blues de quando nos encontramos, tão bonito e tão triste. E meu coração apertado estava abrindo a porta pra você sair, estava ali, aos prantos querendo apenas um abraço pra dizer que eu compreendi, porque no final das contas eu tive culpa por passarmos tanto tempo sem entender aquelas incógnitas que eu deixava em minha face a cada encontro. E quando começou a cair o temporal e o vidro da janela estava enxurrando de gotas na madrugada, eu ouvia aquela trilha sonora, minha favorita trilha sonora, a chuva. E doeu como qualquer despedida, mas era aquela despedida linda e tão poética de quem fala baixinho pra não magoar. Você é um amor bonito pra recordar e eu recomendo se acaso alguém não se importar com um final como o nosso. Nós começamos apressados e numa paixão progressiva, não era como todas as outras paixões, era um resgate, desejo antigo. Mas a distância nos deixou perdidos, em algum momento a balança pesaria muito mais para um lado. O quão amável possamos ser? Foi assim que eu me vi, amando a mim mesma quando gostava de você. Tão sinceros e cuidadosos, escolhendo cada palavra pra não machucar o outro, talvez se todos tivessem a oportunidade de nos vermos, veriam como era belo ler um final ou ouvir um. Nós tivemos sorte. Nossa saudade é uma saudade de volta, de volta pra algo que se perde em cada desejo do presente. Você é um amor daqueles dignos de respeito, daqueles que a gente defende mesmo depois do fim. 




Foi tão lindo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

 No início de todas as manhãs, fecho os olhos e respiro fundo para enfrentar os novos desafios que durante o dia, a noite e por vezes na madrugada fazem surgir na minha vida. 

Durante três meses, as coisas mudaram de uma forma espantosa, o tempo parece correr muito rápido para enumerar e compreender todas elas. Os amigos distantes estão mais próximos e os próximos se tornaram distantes. A vida acadêmica chegou pela metade do tempo (época para decidir entre continuar ou desistir), a minha decisão é permanecer caminhando em busca do meu sonho, sem sombra de dúvidas, estou convicta do que quero e todos os dias tenho me dedicado muito mais para o sucesso da conclusão deste sonho. As noites badaladas com os amigos distantes que se tornaram próximos foram reduzidas, eu estava tentando me encontrar sabendo que nunca estava perdida. Minha melhor amiga se casou e isso aconteceu dentro de três meses: primeiro mês ( namoro), segundo mês ( noivado), terceiro mês ( casamento). Eu acho que não vou conhecer uma história de amor tão rápida assim, a dela é um caso a ser estudado. Estou me aproximando de pessoas que antes dedicava pouco tempo e agora estas ocupam mais tempo no meu dia, tornando o meu dia mais feliz e risonho. Eu pus fim a algo que me definhava e as pessoas que já estavam perdendo a esperança de que eu renascesse entre as cinzas, admiraram-se com as atitudes definitivas que tomei. Alguns planos foram por água abaixo mas muitas lições duras foram aprendidas, eu não me arrependo de nada do que fiz e do que vivi até agora, ainda há tanta coisa pra acontecer, há tanto pra se viver. E como tudo na vida acontece quando se permite, um amor novo se fez presente no coração e tem sido maravilhoso saber que a fonte do amor nunca se esgota, permitindo-me viver sem medo. Estas são as mudanças acontecendo sob os meus olhos e na minha vida. O que permanece acrescenta e o que se vai não se revive. Eu gosto do gosto dos planos que faço e da vida que levo. Amo quem eu sou e me orgulho muito de quem eu sou na vida das pessoas. Nada nesta vida afetará o que guardo dentro do peito, eu tenho muito amor pra transformar tempestade em calmaria. 

sábado, 5 de julho de 2014

Dizer Não

Dizer NÃO pro arrependimento do outro tem suas vantagens. Você amadurece e faz o outro amadurecer também. "O mundo dá muitas voltas" dita o que poderia comprovar  quando um coração errante confessa estar arrependido. Também poderia apontar escandalosamente aquele que após tantos silêncios ensurdecedores, decidiu tentar se redimir. Eu acredito no amor, mas acredito no amor de quem sabe o real significado dele, de quem sabe valorizar a primeira chance. Já vi pessoas chegarem ao fundo do poço ao dizer SIM após inúmeros vacilos de corações oportunistas, egoístas e infantis. Vi o fim de cada coração inocente e imaturo, não naquele fim raso que se tem chance de sobreviver mas aquele que de tão fundo é tão negro que morre só pelo desespero ao cair. Não sei se por falta de amor próprio ou por achar que exista amor em um monte de batalhas preenchidas de derrotas. As pessoas acabam se perdendo, sem saber o seu valor diante da vida e de seus próximos, perdendo assim, sua identidade total. Amor mesmo se ganha na primeira briga, sem revanche. A gente nunca espera a segunda chance quando se tem a primeira. A gente deve ouvir um não de vez em quando, chegar ao fundo do poço pra saber o significado de um Sim. Mas não há nada melhor do que dizer um NÃO, em nome de todas as batalhas perdidas, em nome daquele ciclo vicioso de erros. Dizer SIM pro amor próprio e NÃO pra um algo que acha que seja amor, algo que na verdade é  sentimento vagabundo, confuso e indefinido. A gente deve nocautear por amor e não por falta dele. 

domingo, 22 de junho de 2014

Protejo


Eu sempre quis te proteger de tudo, até do meu amor. 
Como uma mãe por te amar tanto. Como uma irmã mais velha ao te dar tantos conselhos pra seguir em caminhos corretos. Como uma amiga, estando a todo momento ao seu lado. E como em todos os papéis, às vezes há situações em que não sei como proceder , e em algum momento sei que não posso ser tudo e nem devo, pois eu sei que há outros ouvidos que possam te escutar, há outras vozes pra você ouvir atentamente, não posso assumir  estes papéis que comparo a minha forma do quanto o amo. É isso, eu te protejo até de mim, por não saber quem eu sou quando estou amando você. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Essa noite

É só mais uma despedida, meu bem. Talvez seja mais uma de tantas outras em nossas vidas, da nossa memorável e extensa coleção. Dessa vez não há lágrimas, nenhuma conversa rancorosa pra nos destruir porque estamos rindo do nosso próprio fim. E após vários goles de um bom vinho ou talvez de algumas doses de Whisky, nós estaremos em "más" lençóis. Deixaremos naquela cama, nesta noite, neste mesmo quarto em que tudo começou, este orgulho desmanchado em beijos de entrega, derrotados pelo nosso próprio querer. Nós entregaremos os pontos, deixaremos os conselhos e a pouca vergonha na cara que conquistamos durante este curto espaço de tempo que nos deixamos possuir, esqueceremos o mundo, só mais essa noite. É o nosso Adeus, meu amor. É o quinto Adeus. 

O nosso samba e o nosso blues toca constantemente, este é o nosso momento. Estamos bêbados, desajuizados, sem regras, sem ninguém a nos impedir. Essa noite, eu e você temos as mesmas ambições, os meus desejos, as piores ou melhores intenções. E que nos julguem, que nos atirem pedra amanhã, que falem aos quatro cantos do mundo o quanto somos imprudentes no amor. Pois esta é a nossa vingança, o nosso acordo mais insano e medíocre, a loucura justificada por meio de tantos outros fins desgastados de nosso romance, retratando a vida também de outros casais, deixando de lado os nossos próprios erros, estes que nos fazem enumerar nossos fins. É esta a nossa vingança de amor, só mais essa noite. 




domingo, 18 de maio de 2014

Quando eu tenho o seu colo.



" Não se preocupe, não se preocupe criança. O céu tem um plano pra você"


Um dia a minha mãe me disse: filha, você é a pessoa mais amorosa que eu conheço e eu não entendo como pode ser tão boa pra sentir tanto. Mas ela não sabe quais são as consequências, não sabe as escolhas que eu fiz, pelos os erros que eu coleciono e pelas minhas verdades que são jogadas de uma sacada enquanto há pessoas observando tudo de camarote. Eu sempre penso em ter o máximo de tempo com ela pra receber o que às vezes me é negado lá fora, sentir as mãos que me cuidam tão bem todos os dias, porque ela entende sem que eu fale nada, quando eu não consigo me conter, quando o meu sorriso se vai, perguntando como criança indefesa, como quem só sobreviverá se tiver aquilo: mãe, me dá colo, por favor ? E ela me chama, diz pra eu sentar do lado e apoiar a cabeça no colo dela, afagando-me, passando as mãos por meus cabelos, enquanto eu me desmancho em lágrimas. 


E toda vez que o meu céu cai, você o levanta com toda a força do mundo, sem saber, sem entender o que passa . Quando eu não quero dizer nada, você vê tudo em mim, tudo o que não exponho Você me torna mais forte, me transforma em Mulher ao dizer : eu te amo tanto, menina!

Meu sorriso ressurge das lágrimas por milagre do teu amor imenso, sem você eu não seria nada, mãe. Sempre comigo nos piores e melhores momentos da minha vida. Amor como o teu, eu nunca terei. Ninguém vai me amar tanto quanto você, ninguém vai fazer me sentir como você me faz sentir. E o que eu sou hoje, é porque tudo isso veio de você, não entenderia nada do amor se não fosse por você. Se não sei confessar tudo o que sinto quando em momentos te peço colo, é porque eu tenho medo da tua fonte secar, de todas as minhas confissões te fazerem entristecer, porque dento desse meu coração tão sofrido, existem mil flechas advindas de decepções. E eu sei que você tentaria por mil e um motivos tirar todas elas de mim e devolver todas as flechas para quem me atingiu. E eu sei que se retirar de mim tudo isso, eu não vou precisar pedir teu colo. É isso o que me torna mais forte, repartilhar contigo todos as perdas e ganhos que eu tenho nessa vida, quando eu tenho o seu colo.

Eu te amo, infinitamente.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Confissão de um leitor


Ela tinha olhos pequenos mas enxergava com imensidão a tudo, só Deus sabe o porquê de não ter dito a ela, tudo isso ... A voz era tão baixa, tão límpida que podia jurar que fechando os olhos, eu ouvia um anjo a sussurrar, ela tinha cabelos longos e bem escuros, brilhavam, brilhavam ao sol, o vento soprava suas mechas e eu me perdia com tamanho encanto quando ela andava a seu modo, tão lenta, suave, gentil.
 Eu sei que em algum momento, eu deveria ter criado a bendita coragem pra dizer, que eu ainda não vi olhos tão brilhantes quanto os seus, que eu ainda não vi um sorriso tão tímido para um estranho,  ao lado de um amigo seu, que aliás é o meu melhor amigo.
 Eu lembro dela, perfeitamente, do dia em que a vi, naquela confusão de pessoas, andando de lá pra cá, com cartazes, com  os rostos pintados de diversas cores, com opiniões sobre o caos em que a nossa cidade estava ao ver aquele enorme evento. Ela estava ali, com o mesmo propósito que eu, aliás quando a ouvi falando sobre tudo o que sabia e demonstrava ter domínio, eu fiquei calado, abismado. Eu tive quase certeza há minutos atrás, que eu era . Não lembro da última vez que agi com tanta inocência, eu nunca me senti tão indefeso. Dos rostos que encontrei nesta cidade, você foi o resumo de um dia de luta, a luta em que eu fui nocauteado, a luta da qual pensei ter lutado apenas por meu país, por um instante foi tão confuso. Eu queria ter ganhado você, ganhado aquela luta também, queria ter ganhado aquela luta sozinho, sem compartilhar vitória com outros sonhadores manifestantes como eu. Mas você não queria ser a luta e muito menos a vitória de alguém, nenhum coração era seu, será que nem mereceria ser ?
Fui soldado, fui um escravo, fui um mendigo do teu amor. Hoje eu vejo que, eu poderia ter lutado mais, poderia ter feito mil e uma loucuras por você, poderia ter te convencido de que é real, que por mais que seja impossível, eu desejei naquele dia por toda a vida ter você, ter você ... Só que você tão segura e certa do caminho tortuoso que levava, resolveu continuar, amando o desconhecido na escuridão.