quarta-feira, 22 de março de 2017

Oculto

Ei, eu ainda te amo.

E sabe, eu me sinto tão alheio, pequena. Embora as tuas lembranças constantemente adentram nesta casa, teu silêncio por muito pouco não me destruiu. Em uma poltrona velha, aqui estou a relembrar dos teus olhos tão profundos, do teu corpo que causa uma desordem descomunal, da tua voz que hora acalantava e que por vezes me aborrecia pelo tom rude. Não imaginava descrever algum dia este fim, por mais que tão distante me encontro de ti e a tua ausência seja aquilo que por descuido fui premiado, é do teu amor que anseio. Que falta sinto. E chove, meu amor. Eu sei o quanto a chuva te agrada, te faz "riscar" com a ponta do dedo indicador os vidros dos carros, lembrei daquela noite em que tu escreveste um trecho da nossa música enquanto falavas das coisas que já fizemos em dias frios. Uma mulher, uma menina, um ser mais além. E agora, eu me questiono como pude perder tudo isto, é... Eu me convenci de que perdi porque sei que alguém pode amar da forma como tu acreditas que alguém possa e deve amar alguém, transcendendo. 
Hoje, ao voltar do trabalho, encontrei alguns amigos, assuntos aleatórios, naquele momento eu me sentia muito distante, tu permanecias em minha mente, calado por vezes demonstrei o quanto de mim se perdeu depois de ter te perdido.Todos estavam cientes da nossa confusa história, a história da qual saímos sem um norte. Eles sabem da verdade, não da forma como tu querias e como os outros almejam saber. Mas, eu ainda te amo. E sei que é tão tarde quanto ao horário que está marcando. Alguém deve estar tão encantado quanto eu fui ao te conhecer, eu ainda não deixei de estar. Talvez esteja permitindo, já faz tanto tempo, não é? E deves, tu podes! Tolo fui eu. Mas, eu ainda te amo. Eu te amo porque dentre várias outras amantes, tu compreendeste meus defeitos absurdos e esperaste colher aquilo que eu jamais pensei que existisse de fértil em mim, tu despertaste o maior dos sentimentos e mais almejado. Agora eu compreendo, aquilo que eu mais temi e escondi diante de alguém, amor.

Eu te amo.

domingo, 12 de março de 2017

 Grande noite teremos. Avenida 13. Final de tarde. Chove, estes últimos encontros tão mais frequentes nos empolgam, isso parece ser bom, é poético e sujo. Só vem. Não há nada tão excitante quanto ao que estamos vivendo. Eu te chamo, você vem. Você me chama,  eu vou.  Eu estou aqui e você também. É por isso que dá certo, não há outra coisa que nos prenda, não há ninguém que possa nos impor regras de como as relações podem ser, não nos importamos. Não nos cansamos. A gente vive o que tiver pra viver hoje, amanhã e depois, nunca pensar no depois. É aqui, agora, nós dois. Ninguém aqui esconde querer, é um prazer estar ao seu lado, ouvindo Frank Sinatra ou Buarque, perceber que dentro dos teus olhos, eu me sinto completamente despida, você não tem medo, eu não sinto nada tão grande quanto coragem. É por isso que dá certo. Você e eu fazemos acontecer. A roupa amassada, os lençóis jogados no chão, os beijos quentes. O teu nome chamando, meus olhos fixados aos seus, nossa respiração ofegante, elogios indecentes, últimos suspiros acompanhados de sorrisos. Íntimos da noite, vício. Que grande noite tivemos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

E aos tolos confessei das vezes que te amei no escuro, nos meus silêncios disse aos sábios o quanto a chuva anunciava o meu desespero. Você é a tempestade, o caos mais assombroso que qualquer capitão teme enfrentar. Os ventos não me favorecem na calmaria, talvez nunca desejasse um mar sereno. E enquanto esta embarcação estiver sobre as águas, enquanto não encontrar terra firme, o teu desconhecido mar me fará suportar as agonias de um eterno e incansável marinheiro  a velejar. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ausência – Vinícius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

âma(r)go

Perdi o bom senso, o humor, o ardor
Mas zelei o orgulho e a razão,
esvaziei o poço da solidão
Guardei seu amor e de ti descansei
E a mim protegi do caos que é amar o teu ser

Eu sei
Acertei
Errei
Ganhei
Perdi


Não me reconheci
Por engano me redimi
Sem saber o porquê

Corri
Fugi
Voltei
Sumi


E eu estou aqui nessa neutra posição
Em vão nesta indecisão
Nesse tormento incansável
Agoniante interrogação

Em que momento eu me vi em teu icógnito coração?