sexta-feira, 2 de junho de 2017

Sou dela

O perfume dela ficou na camisa branca
Que lembrança...

Lembrei da boca borrada
da cara amassada 
dos brincos perdidos
do atrito dos nossos corpos no colchão

Lembrei do rádio, tocando baixo  
enquanto o batom já retocado
anunciava uma despedida
confusa e indecisa no refrão daquela canção 

Lembrei daqueles longos cabelos, tão pretos
que me distraíam nos sinais vermelhos
assim como os olhos castanhos 
que brilhavam tanto quanto os faróis em minha direção

A mulher de gestos acalentadores
graça, cor, luz e sabores
que nem a mais santa e mais louca 
jamais me proporcionou tamanha emoção

A mulher que falava do amor assim como o fazia
tinha o dom e demonstrava com maestria
Não tinha tocado um corpo tão majestoso quanto o dela
Desconheço mulher mais intensa que aquela 

Eu tantas vezes rei e outras vezes escravo
Tanto reneguei como ainda encaro
Esse amor submisso, tão raro
Cheio de voltas que se afoga  em revolta 
e me afugenta agora dessa demora inquietuosa

Ela me assanha e ainda me ama
Eu não tenho controle sobre tudo o que me consome
Eu a quero de volta mas não revelo essa hora

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Retragos

Juro que meu coração se agitou de forma diferente das outras vezes. Sempre concordamos que quartos de motel eram enodados. Aquele hotelzinho sóbrio da Avenida 13 já significava muito para nós. Uma chuva de final de tarde tornava o ambiente mais mágico e encantador. O sol parecia envergonhado ao se esconder atrás das nuvens cinzas. O tom de preto e branco do céu fazia lembrar uma fotografia retratada meramente em luz e sombras. Pura poesia. Antes de adentrar ao quarto, imaginei quantos encontros furtivos já tivemos e quantas sensações antes nunca experimentadas tive. Medo e desejo se misturavam de tal forma que me arrepiava os braços. Apenas rodei a maçaneta e a porta se abriu. Eu estava ali e ela também, que de alguma forma me atraía e nada mais me importava a partir daquele momento.
 Não havia regras e as amarras se dissolviam como algodão doce na boca. O nosso momento era aquele e o depois não significa mais nada, eis a entrega voluptuosa de nossas vidas. Sinatra surgiu como um último retoque que faltava...All or Nothing at All...tudo ou nada! E sem falar nenhuma palavra, se entregou em meus braços. Ao som dos trompetes da música nos unimos. Futuros Amantes de Chico Buarque revirava minha cabeça...”o amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio”. Realmente fazemos acontecer! Despidos, roupas jogadas ao chão, beijos fogosos que refletiam o quanto queríamos nos possuir. Eu dentro dela, ela me envolvendo de corpo e alma. Não conseguia escutar mais canção alguma, apenas o som excitante da nossa respiração ofegante e num movimento cadencioso, chegamos ao orgasmo juntos. Últimos suspiros acompanhados de uma alegria indescritível. Que grande noite tivemos!

Confidente Anônimo. Texto em resposta ao Avenida 13.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Oculto

Ei, eu ainda te amo
E sabe, eu me sinto tão alheio, pequena. Embora as tuas lembranças constantemente adentram nesta casa, teu silêncio por muito pouco não me destruiu. Em uma poltrona velha, aqui estou a relembrar dos teus olhos tão profundos, do teu corpo que causa uma desordem descomunal, da tua voz que hora acalantava e que por vezes me aborrecia pelo tom rude. Não imaginava descrever algum dia este fim, por mais que tão distante me encontro de ti e a tua ausência seja aquilo que por descuido fui premiado, é do teu amor que anseio. Que falta sinto. E chove, meu amor. Eu sei o quanto a chuva te agrada, te faz "riscar" com a ponta do dedo indicador os vidros dos carros, lembrei daquela noite em que tu escreveste um trecho da nossa música enquanto falavas das coisas que já fizemos em dias frios. Uma mulher, uma menina, um ser mais além. E agora, eu me questiono como pude perder tudo isto, é... Eu me convenci de que perdi porque sei que alguém pode amar da forma como tu acreditas que alguém possa e deve amar alguém, transcendendo. 
Hoje, ao voltar do trabalho, encontrei alguns amigos, assuntos aleatórios, naquele momento eu me sentia muito distante, tu permanecias em minha mente, calado por vezes demonstrei o quanto de mim se perdeu depois de ter te perdido.Todos estavam cientes da nossa confusa história, a história da qual saímos sem um norte. Eles sabem da verdade, não da forma como tu querias e como os outros almejam saber. Mas, eu ainda te amo. E sei que é tão tarde quanto ao horário que está marcando. Alguém deve estar tão encantado quanto eu fui ao te conhecer, eu ainda não deixei de estar. Talvez esteja permitindo, já faz tanto tempo, não é? E deves, tu podes! Tolo fui eu. Mas, eu ainda te amo. Eu te amo porque dentre várias outras amantes, tu compreendeste meus defeitos absurdos e esperaste colher aquilo que eu jamais pensei que existisse de fértil em mim, tu despertaste o maior dos sentimentos e mais almejado. Agora eu compreendo, aquilo que eu mais temi e escondi diante de alguém, amor.

Eu te amo.

domingo, 12 de março de 2017

Avenida 13

 Grande noite teremos. Avenida 13. Final de tarde. Chove, estes últimos encontros tão mais frequentes nos empolgam, isso parece ser bom, é poético e sujo. Só vem. Não há nada tão excitante quanto ao que estamos vivendo. Eu te chamo, você vem. Você me chama,  eu vou.  Eu estou aqui e você também. É por isso que dá certo, não há outra coisa que nos prenda, não há ninguém que possa nos impor regras de como as relações podem ser, não nos importamos. Não nos cansamos. A gente vive o que tiver pra viver hoje, amanhã e depois, nunca pensar no depois. É aqui, agora, nós dois. Ninguém aqui esconde querer, é um prazer estar ao seu lado, ouvindo Frank Sinatra ou Buarque, perceber que dentro dos teus olhos, eu me sinto completamente despida, você não tem medo, eu não sinto nada tão grande quanto coragem. É por isso que dá certo. Você e eu fazemos acontecer. A roupa amassada, os lençóis jogados no chão, os beijos quentes. O teu nome chamando, meus olhos fixos aos seus, nossa respiração ofegante, elogios indecentes, últimos suspiros acompanhados de sorrisos. Íntimos da noite, vício. Que grande noite tivemos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Mar Revolto

E aos tolos confessei das vezes que te amei no escuro, nos meus silêncios disse aos sábios o quanto a chuva anunciava o meu desespero. Você é a tempestade, o caos mais assombroso que qualquer capitão teme enfrentar. Os ventos não me favorecem na calmaria, talvez nunca desejasse um mar sereno. E enquanto esta embarcação estiver sobre as águas, enquanto não encontrar terra firme, o teu desconhecido mar me fará suportar as agonias de um eterno e incansável marinheiro  a velejar.